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Agora sim, uma tourada.

maio 8, 2008

Em primeiro lugar quero pedir desculpas aos (persistentes) leitores do meu blog. Sei que ele não tem um ritmo, uma periodicidade e é que um saco ficar entrando pra ver se tem algo novo (e quase nunca ter hehe), mas é que eu realmente não consigo manter esta coisa funcionando bem. Além da falta de tempo (principal fator) eu meio que enjôo de ficar descrevendo sempre as coisas que acontecem comigo. (tá, então pra que eu tenho um blog?)

Bom, esse evento merece descrição (e com detalhes). Tarde de vinte e sete de abril de dois mil e oito, o dia em que eu vi 6 touros (novillos) serem mortos diante dos meus olhos. Por quem? Ninguém mais ninguém menos que estes tão corajosos, viris e machões espanhóis denominados toureiros (ou novilleros, no caso). No começo era tudo lindo, pura adrenalina. O touro entrando na arena, o carinha esperando ele de joelhos parecendo que ia levar uma chifrada na cara, o povo todo na expectativa… Logo ele entra, os toureiros (sim, no começo tem uns seis carinhas que ficam ali enchendo o saco do touro) e dão um show de habilidade, concentração e coragem. Ficam só ali com os capotes dando olé no touro. Até aí, o espetáculo é muito bonito.

Entra o picador, um homem em cima de um cavalo vendado (claro, imagina o cavalo sem a venda) e enfia uma lança no pescoço do touro (pela parte de cima), o touro se enfurece começa a andar de lá pra cá que nem um louco, querendo chifrar tudo que vê pela frente. O sangue começa a jorrar. Entram os picadores sem cavalos (que têm nome especial, mas agora mesmo  me esqueci) e cada um deles (são 3) metem 4 lanças cada um nas costas do touro (vai um de cada vez, cada um mete 2 por vez). Essas são umas lanças menores que ficam presas no touro rasgando a pele deles e picando em cada movimento que eles fazem. Jorra mais sangue e começa a escorrer. O contraste do vermelho com o pelo preto do touro é algo que faltam palavras pra descrever.

Saem todos os toureiros “ajudantes”, picadores e etc e fica só uma pessoa, o toureiro “master” (nome inventado por mim, não existe ok?). Esse dia eram 3 novilleros e esse primeiro, Agustín de Espartinas, estava se despedindo como novillero para ser toureiro de verdade. Ele é um dos espanhóis mais lindos que eu já vi na minha vida, tem um sorriso encantador e tem 22 anos… ok, voltemos para a tourada. Ficou ali toreando com o animal já machucado, irritado, louco e agitado e no fim matou o bicho ali. Cada um tem aproximadamente meia hora para matar o touro, assim que o espetáculo foi das 18h30 às 21h30, pois eram 6 animais pra serem mortos.

Bem, em suma é esse o ritual. O detalhe é que ele acontece 6 vezes, cada vez revezando os toureiros. Cada um mata 2 touros na tarde. Este mesmo guapísimo Agustín nesse dia ganhou a orelha do touro (sim eles cortam a orelha do touro ali na tua frente, jorra mais sangue e ainda fica escorrendo tudo pela arena e o toureiro desfila com a orelha do touro pela arena) porque ele toureou super bem, daí o pessoal todo que tá na arquibancada começa a chacoalhar um lenço branco (eu era a unica que nao tinha um) para dizer que ele merece a orelha. Vendo isso, o presidente da tourada, ou da comissão de toureiros, sei lá, também chacoalha um lenço pra dizer que o cara merece a orelha. Se ele não chacoalhar, nada de orelhinha. (Quando é com touros e não com novillos, se corta o rabo).

Tinha um tio atrás de mim que era simplesmente aficcionado por tourdas e não calava a boca um minuto. Passados uns 45 minutos eu fui obrigada a pedir explicações pra ele sobre todo o “evento”. Quando eu chamei a muleta (o pano vermelho do toureiro) de “pañuelo” ele quase se matou de rir da minha cara, mas tudo bem. Ele ficou todo empolgado de me explicar a tourada e a cada meia hora perguntava se eu tava gostando. Eu, muit sincera, dizia “na verdade eu to odiando”. Ele não entendeu porque e disse que já ta acostumado a ver aquilo desde criança, que é um espetáculo lindo e uma prova de virilidade dos meninos. Eu disse que eu não gostava que matassem os bichos assim e ele me disse “você não come frango? Eles também morrem” e eu “Sim, mas não sofrendo na frente de todo mundo, eles têm o pescoço quebrado e deu” e ele “Em compensação, eles passam a vida toda ali no galinheiro presos com centenas de outros bichos. Você não idéia de como é criado um touro desses, tem mais regalias que uma criança rica. Passa 5 anos da vida comendo do melhor, ficando no melhor lugar, fazendo exercícios, sendo melhor tratado que muita gente por aí” e eu “Sim e só porque eles vivem bem significa que eles têm que morrer assim, sofrendo?” e ele “Pois é, guapa, são coisas culturais. Se for pensar nos bichos então ninguém mais come nada de origem animal…”

Essa frase ficou martelando na minha casa durante muito, muito tempo. Na verdade continua. Estou um dilema que nunca pensei que estaria. Ou eu aprecio o espetáculo e continuo comendo frango e peixe (porque já não como nenhum outro tipo de carne) ou digo que tudo isso é um absurdo, que touradas são ridículas e viro vegetariana. E agora, José? Que que eu faço? Eu não posso dizer que eu acho um absurdo matar os touros e comer carne (ainda que seja de frango ou peixe). Tampouco posso achar lindo que os matem desse jeito e deixar de comer peixe. Definitivamente, não sei o que pensar a respeito. No último domingo me peguei em frente a TV vendo uma tourada (que estava acontecendo na Real de la Maestranza, a exatos 4 minutos a pé da minha casa, dava para ouvir as cornetas daqui). Estava ali na expectativa de ver um touro chifrar um toureiro, arrastá-lo pela arena, chifrar suas partes íntimas ou qualquer coisa do tipo. Mas depois pensei, será que era isso mesmo que eu queria ver ou estava ali, já tomada pelo espírito de ver o combate entre o homem e o animal sem torcer para nenhum, simplismente esperando o resultado? Fiquei um pouco assustada comigo mesma. E fiquei na frente da TV das 18h30 às 21h30.

Realmente essa coisa me balançou. Ainda me lembro quando o 5º touro já não podia mais andar e ficou parado na arena gritando e chorando e todo o público xingando que aquele touro era de  má qualidade. Ele ali, sofrendo, imagino eu que sentindo dores horríveis, chorando, parado e o toureiro ali tentando tourear (porque se ele não consegue fazer o touro se mexer fica feio pra ele também…). Nessa hora eu não aguentei, o touro gritava como um porco quando morre (sabe aquele barulho de tortura?) e meus olhos começaram a lacrimejar (é assim que se escreve?). A descrição da minha cara nesse momento devia ser uma coisa muito divertida porque misturava pavor, pena, medo, angústia e dor. Não deu pra me conter…

E mesmo assim no outro final de semana ali estava eu vendo a mesma coisa no CanalSur (tudo bem um dos toureiros desse dia também era suuuuper guapo, mas não foi por isso que eu liguei a TV).

Não sei. Não sei. Realmente não sei. Admiro um toureiro pelo seu talento e habilidade e continuo a comer frango e peixe ou repudio totalmente essa prática e viro vegetariana? As duas coisas ao mesmo tempo não posso fazer. Só quem viu ao vivo sabe do que to falando

 

Podem acessar os vídeos no http://br.youtube.com/user/gabiaforlin

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